Um DVD para chamar de meu




A modernidade trouxe consigo inúmeras vantagens. Comparando com o tempo dos nossos avós, por exemplo, hoje os carros são mais velozes com o menor gasto de combustível, a ciência avançou muito em suas pesquisas e no cuidado do ser humano, e os meios de comunicação então, nem se comparam! Hoje falamos com outra pessoa do outro lado do mundo em questões de segundos. A internet proporciona a possibilidade de assistir filmes online, logo em seguida à sua temporada no cinema, pirateado ou não.
A questão é que essa mesma modernidade nos priva de algumas possibilidades também. E como tudo na vida tem sua vantagem e desvantagem...
Recentemente senti o gosto de desfrutar algo há muito sonhado, e ainda não realizado, fruto desta mesma desvantagem. Recebemos uma mensagem da locadora de vídeo onde sempre alugamos os filmes, que essa iria fechar e seus DVDs estavam sendo ofertados por preços bem abaixo dos de mercado, ficando o convite para ir lá conferir. E não pensei duas vezes. Juntei as crias e “lá vamos nós” em busca do que tinham de bom.
No caminho pensei: - Mas, espera um pouco, isso não é bom! Por um lado a internet oferta a comodidade de assistir a um filme em sua própria casa, num clique, e por outro fecha uma locadora, aonde se vai calmamente escolher um filme, e as crianças se fascinam em tal ambiente podendo dizer: - Vou levar esse DVD. De um lado a comodidade de outro o fascínio.
Veja bem, não estou condenando o conforto proporcionado. Aliás, aqui em casa, temos o tal Netflix, o qual me serviu muitas vezes, mas que em algumas outras me deixou na mão, e fui ser socorrida pela locadora em questão. Então percebo o impasse de não se poder usufruir plenamente de tudo, óbvio, e confirmo o que há algum tempo converso com pessoas próximas, os dois meios não tem como subsistirem juntos, infelizmente.
Ao chegar à locadora, como sou muito curiosa, perguntei o motivo do fechamento, já imaginado o que iriam responder. O gerente me contou que com o advento dos filmes online e tudo mais, era improdutivo continuar com sua loja aberta. Ao passo que ouvi de uma cliente: - Poxa! então quer dizer que não vou poder trazer meus filhos em uma locadora?! Pior que, pelo andar da carruagem (ou será do jato?!), não.
Lembro-me da época em que o “falecido” VHS era diversão garantida e de como foi trocado pelo presente e já quase falecido DVD, isso sem mencionar o fugaz bluray que mal começou sua carreira e quase não se fala mais nele. Pois é, sou nostálgica mesmo. Adorava abrir a aba da frente do VHS e vê a película girando ao rodar a bobina - só os fortes entenderão! Também lembro que nesse tempo muitas pessoas criticaram tais avanços e outras aplaudiram as novas possibilidades que se apresentavam. Hoje penso, e confesso que minha imaginação ainda não alcança, em como será o mundo sem as locadoras de DVD...
O que me chamou atenção foi não ter notado expressão alguma de tristeza ou desapontamento no referido gerente, me pareceu até bem satisfeito. Isso me deixou intrigada... Como já tinha feito a pergunta mais indireta do mundo, não me senti a vontade para explorar seu sentimento a respeito, e cá pra nós, também não tinha indo ali para isso.
O jeito foi aproveitar a vantagem que se apresentava. E eu estava feito “pinto no lixo”, como diz o ditado, muito feliz em pensar que poderia possuir os clássicos mais desejados de todos os tempos.
Antes que alguém diga: - Então você quer mesmo juntar uma pilha de caixas de DVD, ao invés de vê-los na internet? Sem acumulo e bagunça? Sim, eu quero! Quero perceber o fascínio que sempre vejo em meus filhos quando digo que algo é do “meu tempo”, ou na minha infância era assim. Sabe a sensação de pegar o livro na mão, sentir o cheiro, ver as manchas no papel? Pois é, para mim é a mesma sensação que sinto com os desejados DVDs. José, meu filho mais novo, disse eufórico: - Eles serão nossos agora mãe?!
E lá fui eu, pintinha, escolhendo filmes do tipo: Charles Chaplin, Um morto muito louco, As pontes de Madison, Os trapalhões, O alto da Compadecida e, o que para mim foi a maior aquisição entre todas, Patch Adams.

Voltei para casa pensando que as coisas mudam, e às vezes não há o que se fazer quando certos avanços da humanidade apresentam-se. Mas sim, podemos fazer dos limões uma bela limonada, talvez essa seja também a descoberta do tal gerente. Bom, decidi fazer deles pipoca e guaraná.

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